Um dos meus maiores ídolos foi embora

Um dos meus maiores ídolos foi embora. Eu sempre critiquei quando algumas pessoas ficavam chocadas e tristes com a partida de alguém que não conheciam pessoalmente ou até mesmo quando perdiam um bicho de estimação. Eu nunca compreendi. Sempre achei isso uma parte estranha de mim. Sempre me perguntei e ainda me questiono a minha falta de empatia e frieza por muita coisa. Mas depois de cinco dias com o coração apertado e de ainda não acreditar, posso dizer que eu consigo compreender isso um pouco. Parece que alguém muito próximo partiu.

Nesses dias venho buscando compreender o porque desse sentimento e olhando para trás vejo que a resposta é simples. Há uma conexão. A existência do Kobe me toca. E muito.

Quando eu era moleque, com 14, 15 anos me apaixonei perdidamente por basquete. Esse cara, entre outros, era a minha inspiração. Eu queria ser aquele cara! Quando a gente é mais jovem parece que a gente sonha mais, eu sonhava acordado em ser jogador de basquete, em tocar numa banda punk em ser um artista famoso. Depois de um tempo chega a faculdade, você cresce e a vida de gente grande vai meio que tomando conta de tudo. Esses sonhos foram se esvaindo e acabaram por ser incubados mas não esquecidos.

Muito tempo sem ver e nem jogar basquete. Muito tempo sem saber o que fazer da vida. Muito tempo fazendo o que não gostava.

Treze anos depois, depois de um longo processo de autoconhecimento resolvi criar coragem e vir morar no Rio para tentar a vida de artista. Conforme eu ia estudando percebia que a profissão de ator é igual a de um atleta. As mesmas questões: dedicação, treinamento, disciplina… e quando menos percebi, numa relação muito próxima e natural com a minha nova realidade, já estava viciado e apaixonado em basquete de novo. Voltei a jogar! Voltei a arremessar bolas invisíveis nos ensaios e em casa (causando estranheza nos outros)! Voltei a ver NBA.

Tudo na liga havida mudado, não foi diferente com Kobe, era um cara mais maduro e eu também. Pode parecer meio romantizado e bobo mas me parecia que havíamos “caminhamos juntos”. Minha admiração não era mais pelo jogador e sim com o ser humano. Eu acompanhava tudo que ele ensinava fora das quadras. Tudo! O basquete era a última ponta. Sua maneira de pensar, sua mentalidade, disciplina. Eu tentava, e tento até hoje, copiar isso na minha vida. Juro por tudo que é mais sagrado que quando boto o despertador pra tocar todo santo dia, me vem na cabeça seres iluminados como Kobe. “Felipe, o Kobe acordaria mais cedo”, eu penso e me cobro, ajustando de novo o despertador. Deixando a modéstia de lado, quando alguém no teatro me dizia: “Cara, é em você quem eu mais acredito”, me vinha a imagem do Kobe. “Cara, você sempre chega na hora, né?”. Kobe! “Cara, apesar de ser um cara inseguro e sofrer no processo, no final você passa por tudo e consegue”. Kobe!

Kobe me fez acreditar que não preciso ser o melhor, mas de alguma forma, ser o exemplo, e assim tornar o outro melhor. Não me acho e nunca vou me achar uma pessoa ou profissional perfeito, longe disso, mas um dos legados que esse cara deixa pra todo mundo é de sermos a melhor versão de nós mesmos. Você me fez uma pessoa melhor e agora está até me ensinando a conhecer meus sentimentos. Veja só. Vai fazer muita falta. 😢